Projeto da UAlg cria percurso de visita acessível nas Ruínas de Milreu
A Universidade do Algarve (UAlg) irá participar na intervenção de requalificação das Ruínas Romanas de Milreu, em Estoi, Faro, através do projeto “Percurso de Visita Acessível e Enquadramento Paisagístico”.
Coordenado por Ana Paula Gomes da Silva e Sónia Talhé Azambuja, arquitetas paisagistas ediretoras, respetivamente, do mestrado e da licenciatura em Arquitetura Paisagista da Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da UAlg, este projeto pretende criar um percurso de visita contínuo, confortável, seguro e acessível a pessoas com mobilidade reduzida.
A intervenção, financiada pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), incide sobre uma área patrimonial de elevada sensibilidade arqueológica e paisagística. Visa melhorar as acessibilidades, em particular para pessoas com necessidades especiais ou mobilidade reduzida, renovar o percurso de visita, conciliando a conservação, a acessibilidade universal, a utilização pública, a interpretação arqueológica e a valorização da paisagem cultural de Milreu.
O bem imóvel é propriedade do Estado português, sendo o dono da obra o Património Cultural, I.P. No âmbito da intervenção “PRR_Ruínas Romanas de Milreu — Requalificação do Centro Interpretativo e outros Trabalhos”, a empreitada de requalificação do Centro Interpretativo de Milreu e do Projeto de Percurso de Visita Acessível e Enquadramento Paisagístico representa um investimento de 993.820,09 euros, acrescido de IVA.
Com a implementação deste projeto, o novo percurso funcionará como uma barreira de proteção das estruturas arqueológicas, orientando a circulação dos visitantes e evitando que pisem indevidamente os mosaicos, pavimentos, muros e outras áreas sensíveis do monumento, como tem acontecido devido à ausência de um percurso claramente definido. A solução proposta responde a estes problemas, através de um percurso adjacente às ruínas, áreas de aproximação aos ambientes arqueológicos e um novo acesso ao Centro de Interpretação, permitindo tornar a visita mais clara, inclusiva e circular.
Um dos aspetos mais delicados da intervenção agora em curso prende-se com os grandes blocos arquitetónicos do templo romano, que serão deslocados para uma nova localização, após cerca de 40 anos no local onde se encontravam. A operação prevê o levantamento tridimensional, realização de ações de conservação e restauro, o envolvimento das peças com cintas de proteção e o recurso a uma grua de grande capacidade, permitindo libertar o novo percurso expositivo e, simultaneamente, valorizar a leitura destes elementos arquitetónicos. Estes blocos, provenientes dos derrubes da estrutura original do templo, serão reposicionados de modo a facilitar a sua interpretação pelo público. A intenção é permitir que os visitantes compreendam a que partes do edifício pertenciam, observando detalhes construtivos especializados sem necessidade de entrar nas áreas arqueológicas mais sensíveis.
Foram identificados em Milreu materiais romanos, nomeadamente o uso de opus caementicium (uma espécie de betão romano) e de argamassas com incorporação de elementos associados à pozolana (um material rico em sílica e alumina, de origem vulcânica ou, por vezes, artificial), materiais que evidenciam a qualidade técnica e construtiva do templo. A eventual presença de pedra vulcânica, que não existe naturalmente na zona de Faro, levanta hipóteses sobre a circulação de materiais e conhecimentos técnicos no mundo romano, reforçando a singularidade patrimonial do conjunto.
Do ponto de vista construtivo e paisagístico, o projeto assenta em critérios de compatibilidade material, reversibilidade e respeito pelo património arqueológico. Entre as soluções previstas, as coordenadoras do projeto escolheram utilizar saibro (material de origem granítica) estabilizado com ligante pozolânico, material que remete para técnicas construtivas de inspiração romana e a instalação pontual de passadiços metálicos autoportantes nas zonas em que o percurso necessita de se aproximar ou sobrepor às estruturas existentes.
A intervenção contempla ainda a criação de rampas, novos pavimentos, pontos de descanso e contemplação, bem como bancos ao longo do percurso. O novo traçado terá inclinação adaptada a cadeiras de rodas, estando prevista a possibilidade de recurso a um dispositivo de tração que reduza o esforço nas zonas de maior inclinação.
Para além da acessibilidade, o projeto pretende valorizar a experiência de usufruto da paisagem envolvente, situada na transição entre o mar e o barrocal algarvio, através da criação de zonas de estadia, contemplação e sombra, bem como da instalação de mobiliário urbano adequado. O projeto de arquitetura paisagista contribuirá também para melhorar a leitura da flora associada à época romana, reforçando a dimensão cultural, científica e pedagógica da visita.
O projeto conta com a consultoria científica de João Pedro Bernardes, docente da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (FCHS) da Universidade do Algarve especialista em Arqueologia Romana, e de Rui Graça e Costa, especialista em Engenharia Civil, docente do Instituto Superior de Engenharia (ISE) da UAlg.
Já António Medeiros, arqueólogo e coordenador das Ruínas Romanas de Milreu, do Património Cultural, I.P., assume a coordenação da fiscalização da obra e a empreitada está a cargo da empresa NOBISLUX — Engenharia, Unipessoal, Lda., sendo o acompanhamento arqueológico assegurado pela Engobe — Arqueologia e Património, Lda.
Esta intervenção representa um contributo relevante da Arquitetura Paisagista para a salvaguarda, interpretação e democratização do acesso ao património arqueológico, reforçando o papel da Universidade do Algarve na valorização científica, cultural e territorial do património do Algarve.
Sobre as Ruínas de Milreu
As Ruínas Romanas de Milreu constituem um dos mais relevantes conjuntos arqueológicos do Algarve e um dos primeiros vestígios arqueológicos reconhecidos como Monumento Nacional em Portugal. O conjunto integra uma casa senhorial romana, complexo termal, lagares de vinho e azeite, instalações agrícolas e um templo consagrado a divindades aquáticas, testemunhando a evolução construtiva do sítio entre os séculos I e VI d.C.
Já em 2016, no âmbito do projeto DiVaM e enquadrado nas Jornadas Europeias do Património, através de uma parceria entre a FCT, a Direção Regional de Cultura do Algarve e o Centro Ciência Viva do Algarve (CCVAlg), foi elaborado um projeto de plantação de quatro canteiros pedagógicos com plantas romanas, nas Ruínas da Villa Romana de Milreu, de autoria e coordenação das arquitetas paisagistas e docentes, Ana Paula Gomes da Silva e Sónia Talhé Azambuja, com o apoio de dois estagiários de arquitetura paisagista, André Tomás e Rúben Flores. A seleção das vinte cinco espécies de plantas foi feita com base no tratado De Materia Medica, obra de referência com um elenco de cerca de 600 plantas medicinais, da autoria do médico greco-romano Dioscórides (fl. 50-70 d.C.); nas descrições de plantas tintureiras do tratado de Vitrúvio (séc. I a.C.) intitulado De Architectura; nos estudos dos pólens encontrados nas villae romanas, nas plantas representadas nos frescos romanos, nas descrições de jardins de autores do período greco-latino, na flora autóctone do Algarve, entre outras fontes.
Créditos da imagem: UAlg
Ademar Dias




